Elekistão

Notas sobre o universo cultural e adjacências

Perfil Cassiano Elek Machado é repórter especial da Folha

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Clarice Lispector de almanaque

Por elekistao
26/10/13 00:45

Se num vestibular, numa rodada de “Master” ou no “Show do Milhão” você tivesse que identificar o autor da citação a seguir dificilmente tascaria o X no lugar certo (com ou sem ajuda de universitários). “Minha garotinha está sempre derramando suco de frutas sobre as toalhas de mesa. Há algum meio de resolver essas marcas tão desagradáveis?  Goma em pó aplicada imediatamente costuma remover essas marcas tão desagradáveis”.

Alessandra Maestrini, em cena de “Correio Feminino”, série inspirada em Clarice Lispector

Believe-me, trata-se de um legítimo Clarice Lispector, de 1959, quando a autora já havia publicado três romances, incluindo “Perto do Coração Selvagem”. Mas, verdade seja escrita, também não é um legítimo Clarice Lispector. Ela o escreveu, sim, mas sob o pseudônimo de Helen Palmer, para a coluna “Correio Feminino – Feira de Utidades”.

Este “almanaque” feminino, que a autora publicou por três anos no jornal “Correio da Manhã”, agora ganha as TVs de todo o país.  Os textos de Palmer (e outros que Lispector publicou sob as alcunhas de Teresa Quadros e de Ilka Soares, neste caso como ghost writer da atriz) são a fonte de inspiração da série “Correio Feminino”, que o Fantástico exibe a partir de amanhã (27), na Globo.

Estrelada por Maria Fernanda Cândido, Cintia Dicker, Luiza Brunet e Alessandra Maestrini, a série em oito episódios foi concebida e dirigida por Luiz Fernando Carvalho, responsável por mais de uma dúzia de grandes adaptações de boa literatura brasileira para TV e cinema. Sob o pseudônimo de Folha, o Elekistão entrevistou Carvalho por e-mail. E a íntegra da conversa segue abaixo.

Cintia Dicker, no estilo “bem verão”, em cena de “Correio Feminino”

Você tem um trabalho consistente de adaptação do melhor da literatura brasileira, de Machado de Assis a Raduan Nassar. Embora Clarice Lispector esteja na ponta de qualquer cânone brasileiro sua “heterônima” Helen Palmer nunca foi um projeto de ambição literária. Como foi o desafio de trabalhar neste registro?

Sou leitor de Clarice há anos, não apenas de seus romances, mas de suas correspondências e contos, e confesso que só há pouco tempo me deparei com sua fase jornalística: um universo híbrido, um gênero novo e consequentemente uma forma nova para mim, uma espécie de jogo de esconde-esconde da escritora com ela mesma. Procurei entender quem exatamente estava diante de mim. Não era Clarice, a pessoa física, como alguns pensam, expondo-se em linguagem natural e direta por meio de cartas às redações dos jornais. Era, sim, mais uma de suas criações — Helen Palmer —, onde, mais uma vez, as fronteiras que delimitam o espaço afetivo entre vida e obra encontrava-se pulverizado. Não aceito a condenação de alguns, que, no intuito de derrubar os almanaques em relação a seus grandes romances, não o enxergam como produção digna da obra de Clarice. É preciso ler mais uma vez os almanaques sem o preconceito de um gênero de época. Clarice está em tudo, até mesmo a verve da escritora de “A Paixão Segundo G.H.”, em um jogo quase metalinguístico, a um só golpe distanciado e próximo. Então o maior desafio foi o de não aceitar a pecha de subliteratura, percebendo com alegria, sim, por que não?, o rigor e a delicadeza dela ao tratar de temas aparentemente tão triviais.

Você tem diversos trabalhos centrados no universo da mulher, mas “Correio Feminino”, o nome já indica, é o mergulho mais radical nesse sentido. De que modo essa experiência te ajudou a refletir “afinal, o que querem as mulheres?”?

Não passo de um aprendiz de observador do humano e, como você sabe, há muitos mistérios insondáveis nesta seara. Não será em um único trabalho que daremos conta de (confesso!) certas obsessões. Também não precisaria ir aqui muito além, o feminino está presente em toda a história da arte. Não colhi respostas satisfatórias ou finais em meus trabalhos anteriores. O feminino me traz um sentido de natureza, de força primordial, lugar onde preciso voltar sempre, meu cosmo, minha placenta espiritual, de onde puxo o novelo — ou seria o cordão umbilical? Pouco importa, de lá vou puxando tudo! Afinal, o que querem os homens? Os adolescentes? As criança? O que quer o dono de banco, o pedreiro, a bailarina, os professores? Afinal, o que quer o ser humano?

Existe uma crítica bastante comum no universo acadêmico à identificação exacerbada de Lispector com o rótulo de “literatura feminina”. Até que ponto isso representou uma preocupação para ti ao adaptar o que há de mais escancarado “feminino” (ainda que não sob o nome de Lispector) da produção dela?

Esta visão nunca me atrapalhou, talvez por nunca ter lido sua produção através deste viés, sem dúvida nenhuma, limitador. Em “Correio Feminino” procuramos fazer um recorte segundo o qual a atemporalidade dos temas fosse preponderante ao cotejarmos com o feminino de hoje; ou seja, capítulo a capítulo, lançaremos a mesma pergunta: as mulheres dos 1960 para cá permaneceram as mesmas? Grandes avanços aconteceram, mas me parece que muitas questões continuam abandonadas. Em que aspectos evoluíram? Em que aspectos estacionaram? Sem falar que o que se convencionou chamar de feminino me parece hoje algo muito mais amplo, são questões que vão além das mulheres, como disse antes, elas alcançam e representam questões humanas e sociais mais abrangentes, transpassando até mesmo a ideia dos gêneros. O feminino está em tudo: na delicadeza, na ética, na criação. Não ha nada no mundo que não passe pelas coordenadas míticas do feminino e suas transformações insondáveis. E isto, no meu modo de sentir, é pura Clarice.

Luiza Brunet se enfeita em cena de “Correio Feminino”

Ainda que a série tenha elementos de época, como câmeras, microfones, rádios, vestuário, a linguagem visual parece bastante contemporânea, tanto na luz, quanto em recursos gráficos como a divisão de telas e o uso das cores. Isso foi intencional? Até que ponto o conselho para a mulher dos anos 1960 faz sentido para a mulher de 2013?

É uma reflexão para os espectadores. Não acredito em verdades absolutas, é apenas um papo. E um papo pop, no sentido de uma cumplicidade entre amigas, confidentes, mas em um tom de almanaque, ou seria de Facebook? Não seria muito diferente do que acontece em alguns sites e blogs de hoje: modernos, mas com um sentimento e sem perder o estilo. Questões ligadas ao afeto, às relações e aos cuidados consigo mesma podem nos parecer mais coladas aos dias de hoje, mas me parecem eternas. Foi divertido cotejar estes espaços da subjetividade feminina, criando um diálogo não só entre épocas, mas, principalmente, entre as convenções do que vem sendo denominado historicamente como feminino .

Quando sugeri escrever sobre a série, o chefe de reportagem da “Ilustrada” me respondeu: “Legal, é uma série com cores meio Almodóvar, não?”. Você tinha o cineasta espanhol (ou algum outro em especial) em mente quando concebeu o projeto? 

Não, não (risos). Mas há uma coincidência engraçada aí! Numa conversa ontem eu clamava pela necessidade de um olhar mais feminino na produção audiovisual brasileira. O Brasil conviveu, desde sempre,  com cineastas brilhantes, mas sinto falta desse olhar. E não quero dizer com isso que este olhar tenha que vir necessariamente de uma cineasta, poderia surgir de um cineasta, como o Almodóvar, eu dizia. Mas não. Não recorri a ele como referência. Minhas pontes foram com a propaganda de revistas femininas da época, que, por sua vez, já continham muitas cores e um excelente design.

A coluna de Clarice tinha o subtítulo “Feira de Utilidades” e um caráter de “almanaque”, feita de pequenas notas de variedades. Como foi a adaptação destes fragmentos, curtinhos, numa narrativa mais extensa?

De saída, gostaria de sentir a voz de Clarice falando para gerações diferentes. Isso traria uma dinâmica narrativa ao programa. Então imaginei as três idades. Depois, chamei a Maria Camargo para recortarmos os fragmentos que mais nos interessavam e criar o texto final. Foi então que imaginei uma narrativa sem contracampo, fluida, musical, que dispensaria portas e janelas, cenários, ruas, todo aquele vocabulário naturalista, elevando a linguagem a um exercício narrativo que privilegiaria a voz de Helen Palmer. O cenário é a voz. Ela criaria um contraste com elementos clássicos da construção das imagens, como as cores, a luz e os figurinos. Desde sempre pensei que apenas precisaríamos dar tridimensionalidade a um almanaque, com um certo sopro de modernidade, claro.

A verdadeira libertação de um cão

Por elekistao
22/10/13 14:47

Dinho deixou de chafurdar diariamente na cocaína, no crack, no ecstasy e na maconha para bater em outras portas da percepção. Gaúcho de boa cepa, só no mês passado, já grisalho, ele pôde afundar os caninos, pela primeira vez, num naco sanguinolento de churrasco. Ele fez por merecer, trabalhou como um cão. Durante toda a existência, bateu ponto na Polícia Federal de Porto Alegre. Vivia espartanamente, com um cronograma puxado de exercícios e treinamentos, alimentação regrada, horários restritos, confinamento. Noitadas, esbórnias, reivindicações trabalhistas, maledicências contra os superiores – jamais. Para ele, só havia o emprego. O emprego e os narcóticos, dia após dia. É rebolando o traseiro que Dinho comemora a libertação das drogas, o início de uma vida cã.

Dinho, cão-herói gaúcho

O principal jornal gaúcho, “Zero Hora”, documentou o rito de passagem. Numa terça-feira, no final de março, Dinho ocupou toda uma página do tablóide. Vestido com um luzidio colete negro da Polícia Federal, exibia um porte altivo. Sua carreira de agente terminava ali. Para tristeza dos colegas, o maior farejador da história da Divisão de Repressão a Entorpecentes do Rio Grande do Sul pendurava a coleira.

Como alguns aposentados neuróticos, que não conseguem se reciclar, ele continua a frequentar o local de trabalho. Mas, enquanto outros labradores aguardam novas missões, é espalhadão no assoalho, junto aos pés de seu parceiro de trabalho, Arthur Vargas, que Dinho desfruta do ar-condicionado.

Vargas e Dinho viveram mais de oito anos no estilo Cosme e Damião: um não trabalhava sem o outro. A parceria começou no Canil Central da Polícia Federal, em Brasília, onde todos os cães-agentes são treinados desde pequenos. A vida de um farejador começa a tomar forma aos dois meses de idade. Nessa idade, os labradorzinhos (ou springerzinhos spaniels, ou mallinoisinhos ou pastorzinhos alemães) previamente selecionados, por serem filhos de outros farejadores, fazem uma espécie de vestibular, no Distrito Federal. Os hiperativos e possessivos passam para uma segunda fase. Ao completarem um ano, estão prontos para a “universidade”: um curso intensivo de três meses, de segunda a sexta-feira, em período integral.

“Cada cão faz três drogas de manhã e três de tarde”, explica Vargas, com a voz calma e um par de óculos de clínico geral. O treinamento é todo feito com a mesma ferramenta: um tubo de pvc branco, do tamanho de uma lanterna grande, dentro do qual é colocado outro tubo de pvc branco um pouco menor, com alguns furos ao longo de sua superfície. Dentro do recipiente interno são postas, alternadamente, embaladas em sacos de plástico, as cinco drogas que os farejadores brasileiros são treinados para detectar: cocaína, crack, maconha, ecstasy e, mais recentemente, heroína. É com este mesmo bastão de pvc, cada vez aromatizado por um narcótico, que os cães federais brincarão até o final de sua vida – ou melhor, até, como Dinho, se aposentarem.

Gaúcho de São Borja (como Getúlio), Vargas explica que a atividade dos farejadores se reduz a encontrar o tubo branco, e com isso ganhar afagos de seu parceiro e treinador. Os cães não são premiados com biscoitos, com bistecas ou com roupinhas de lã. Nos treinamentos, nos quais o brinquedo de pvc com narcótico é escondido das mais variadas formas, eles são recompensados com uma saudação do tipo “boa, garoto!”.

Para evitar que tenham seus 240 milhões de células olfativas corrompidas (os humanos, temos no máximo 12 milhões delas), os agentes-farejadores comem apenas um tipo de ração, não convivem com outras pessoas que não seus treinadores, não passeiam livremente e são impedidos de cheirar florzinhas, postes, xixis e secreções de outros cachorros. Quando são usados em operações em aeroportos, em batidas policiais nas estradas ou em buscas e apreensões, eles apenas querem o brinquedo de pvc.

Em 55 flagrantes, Dinho detectou mais de uma tonelada de cocaína e quatro de maconha. É um recorde nacional. Seu talento olfativo fez com que fosse o escolhido para representar o Brasil no exterior. “1o Seminário Sudamericano Canino 1999 – Bolívia”, lê-se no diploma ao lado da mesa de Vargas. Embora não fosse um encontro competitivo, Dinho foi, diz seu parceiro, o único entre os cães hermanos que conseguiu detectar as drogas em todos os testes.

A excelência do filho de um cão inglês (o senhor Book) e de uma brasileira (madame Bruska) fez com que ele fosse requisitado para missões pelo Brasil afora, e representasse a Polícia Federal na Semana Farroupilha e em algumas festas da uva, como atestam dezenas de fotografias afixadas na maior sala do canil porto-alegrense, onde ele vivia.

No mesmo ambiente, fica uma ferramenta importante do trabalho da dupla Vargas-Dinho. Em um cofre cinza-esverdeado, semelhante aos que os Irmãos Metralha tentavam abrir nos quadrinhos da Disney, ficam recipientes com cocaína, maconha, crack e ecstasy (a heroína anda em falta). Vargas, e os demais treinadores, precisam das substâncias para manter os tubos de pvc com o cheiro da droga tal como ela é comercializada: fresca. A cocaína e o crack são as que perdem o seu buquê mais rapidamente. Com isso, o canil da pf recebe com regularidade pacotes com drogas da melhor qualidade. A mistura de drogas faz com que, ao ser aberto, o cofre exale o bafo de um pântano.

Quando Vargas se aproxima do canil com um bastonete de pvc devidamente aromatizado, os cães ali hospedados fazem uma algazarra que picanha alguma provoca numa cachorrada normal. Sob o olhar blasé de Boss, um rotweiller que não faz parte da brigada de farejadores, e que fica por ali apenas para proteger os demais cães, é com a agilidade de um Michael Jordan que Astro, um labrador, tenta alcançar as mãos do policial.

Dinho, cuja aposentadoria faz com que se desapegue progressivamente do brinquedo anabolizado, ensaia alguns pulos, mas logo se acomoda, de língua de fora. Enquanto isso, Vargas dá os comandos para Astro: “zit!”, “nein!”, “up!”. Isto por que a Polícia Federal adotou a escola alemã de treinamento de farejadores, e é nesse idioma que eles aprendem os principais comandos. Se na escola inglesa os cães trabalham com coleiras, e costumam ser exibidos ostensivamente, na alemã tudo é feito na miúda: na maior parte das missões, os cães não ficam à vista, e tentam achar seus tubos de pvc nos bastidores dos aeroportos.

Para Dinho, tudo isso é passado. Com exceção de uma ou outra missão na qual é levado como “supervisor”, a vida dele agora é feita de ar- condicionado, sonecas à vontade e todo um novo universo gastronômico. Eros, seu filho, Astro, o neto, e o Luky, o bisneto continuarão seu legado farejador na pf. Para o velho labrador, que completou 10 anos e foi adotado pelo parceiro Arthur Vargas, nada mais de ouvir gritos em alemão e de correr atrás de drogas. Ele cansou da cocaína e se ligou no chocolate.

 

Post-scriptum: Se o texto acima lhe é familiar você é um leitor atento da revista “piauí”, onde publiquei o texto no longínquo maio de 2007 (edição número 8), sob o título “Cheirar, nunca mais”. Meus agradecimentos aos piauienses por emprestarem o artigo para fins elekistânicos. 

 

O colombiano que adivinha o Nobel

Por elekistao
14/10/13 12:33

O colombiano Héctor Abad já demonstrou ser um grande jornalista e escritor, com livros altamente recomendáveis pelo Elekistão, como “El Olvido Que Seremos” (lançado no Brasil como “A Ausência Que Seremos”, pela Companhia das Letras). Agora, deu para comprovar seus talentos de adivinhador de Prêmios Nobel de Literatura.

Alice no país das maravilhas

Em texto recém-publicado no diário colombiano “El Espectador”, Abad conta como avisou horas antes do anúncio do prêmio, em Estocolmo, que a canadense Alice Munro, 82, ganharia a maior honraria literária. No texto, que pode e deve ser lido aqui, ele comenta como já havia “adivinhado” o prêmio a Vargas Llosa, em 2010, nas duas ocasiões agindo em conluio com a jornalista Pilar del Río, tema da coluna elekistânica “Por que não sou viúva de Saramago” .

Na segunda quinta-feira de outubro de 2014, a primeira coisa que farei é telefonar a Abad e para Del Río para perguntar qual livro eles estão alisando naquela manhã.

 

Post-scriptum: Como o prêmio a Munro foi o primeiro a uma contista ortodoxa resolvi perguntar a um dos maiores autores do gênero no Brasil o que havia achado. Sérgio Sant’anna, escritor que, ganha todos os prêmios no Elekistão, disse que não conhecia a obra de Munro, estava em Frankfurt, na delegação brasileira homenageada na feira do livro daqui. A resposta dele foi: “Desconfio muito do Prêmio Nobel. Mas não deixa de ser uma valorização para os contistas”.

 

 

 

Alemanha 9 x 1 Brasil

Por elekistao
12/10/13 09:36

No intervalo do jogo, a seleção brasileira estava perdendo de 6 x 0 da Alemanha.

E a Folha perguntou a Pepe, aquele mesmo que encantou o mundo jogando ao lado de Pelé, o que o time brasileiro poderia fazer para reverter o resultado. “Só nos resta rezar. Eles são muito bons na caneta, mas não tanto assim no futebol”, disse o “treinador” do time.

Não foi fácil, como se pode ver na foto de Simon Hofmann

“Eles” era um time de autores brasileiros que enfrentou, no início da fria noite desta sexta (11/10), em Frankfurt, a seleção de escritores da Alemanha e perdeu de 9 x 1.

A partida foi realizada no gramado do time SG-Sossenheim, como parte da homenagem ao Brasil realizada pela Feira do Livro de Frankfurt. Faltou cortesia por parte dos anfitriões.

Logo aos 12 minutos do primeiro tempo, Moritz Rinke abriu o placar para o time alemão

Dramaturgo e autor de um romance elogiado, e que vendeu mais de 200 mil cópias, Rinke faria outros cinco gols ao longo da partida, o mais bonito deles uma cabeçada no canto direito da meta do romancista brasileiro Julio Ludemir.

O próprio artilheiro da partida eximiu o goleiro da seleção canarinho de culpa no resultado. “Ele fez uma boa atuação. Nós ganhamos porque jogamos sempre juntos e o time do Brasil foi feito só para esta partida”, disse Rinke após o jogo.

AUTONOMA 9 X 1 PINDORAMA

Atuais vencedores do campeonato europeu de seleções de escritores (não é ficção), o time alemão, o Autorennationalmannschaft, atua desde 2005 e já bateu a seleção da Áustria por 12 x 1. A equipe, apelidada de Autonoma, treina toda segunda-feira.

A seleção brasileira, que adotou o nome fantasia de Futebol Clube Pindorama, foi formada meses antes da feira, a convite do próprio time alemão e do Instituto Goethe, patrocinadores do jogo.

Vestiram a camisa amarela escritores como Antonio Prata, colunista da Folha, e esforçado lateral esquerdo, Marcelo Moutinho (o número 10), o meia Flavio Carneiro e o vigoroso zagueiro Rogério Pereira, fundador do jornal literário “Rascunho”.

Representante da Feira de Frankfurt no Brasil, o jornalista Ricardo Costa fez a pré-seleção do time. Um dos destaques da equipe, o jornalista e escritor Celso de Campos Jr., autor de biografia de Adoniran Barbosa, ajudou na convocação.

Foi ele que marcou o gol brasileiro, aos 35 minutos do segundo tempo, de pênalti (duvidoso), num chute seco no canto do romancista Albert Ostermaier.

Logo após o gol de honra, os jogadores dos dois times começaram a se abraçar e a partida foi encerrada, antes do tempo previsto.

O treinador Pepe, que comandou equipes de grandes glórias, como o São Paulo campeão brasileiro de 1986, provocou o técnico alemão. Cutucando o ombro do veterano “Rudi” Gutendorf, 87, que está no “Guinness” como o treinador do maior número de seleções nacionais (foram 18, em todos os continentes), disse: “O próximo jogo será na Vila Belmiro e eu e Pelé vamos jogar”.

ARQUIBANCADA

Na plateia do jogo, Paulo Rink, jogador brasileiro que foi estrela no futebol alemão, onde chegou a defender a seleção nacional, também se voluntariou.

“Queria poder entrar em campo, mas não deixaram”, disse o ex-atacante do Bayer Leverkussen, atualmente vereador em Curitiba. “Foi um massacre. Espero publicar um livro com meus decretos na Câmara Municipal para poder jogar na próxima partida”, brincou.

Entre os cerca de 90 espectadores do jogo, também estiveram “craques” do âmbito artístico-literário, como a agente Lucia Riff, o alemão Alfons Hug, ex-curador da Bienal de Arte de São Paulo, e a diplomata Marion Loire, responsável pela política do livro francês no Brasil.

Além deles, muitas crianças alemãs assistiram o jogo e pegaram autógrafos com os jogadores brasileiros. Antonio Prata, por exemplo, assinou uma bola de futebol e, esticando o cabelo para o alto brincou com um garoto: “Sou o Neymar, conhece?”, sem explicar ao pequeno alemão que ele é o Neymar das crônicas.

Resta ao Neymar dos campos dar o troco em 2014. A partir de ontem isso ficou mais possível: duas horas após o final do jogo das equipes da ficção, a Alemanha (a de verdade) ganhou de 3 x 0 da Irlanda na cidade de Colônia e garantiu presença na Copa do Mundo do Brasil.

 

Escalações

Alemanha Albert Ostermaier, Jorg Schieke, Norbert Kron, Christoph Nussbaumeder, Jochen Schmidt, Klaus Cäsar Zehrer, Moritz Rinke, Wolfram Eilenberger, Thomas Klupp, Klaus Döring, Florian Werner, Matthias Sachau, Uli Hannemann, Andreas Merkel, Falko Hennig e Nils Straatmann. Técnico “Rudi” Gutendorf.

Brasil Julio Ludemir, Fernando Galuppo, Marcos Alvito, Rogério Pereira, Vladir Lemos, Antonio Prata, Flávio Carneiro, José Luiz Tahan, Celso de Campos Jr., Marcelo Moutinho, Custodio Rosa, Ricardo Costa, Gustavo Krause, Eduardo Spohr, Julius Wiedermann, Rodrigo Oliveira, André Argolo, Márcio Vassalo. Técnico: Pepe.

Ruffato “deu a real”

Por elekistao
09/10/13 09:25

O Elekistão está em Frankfurt, terra de grandes conexões financeiras e editoriais (e das piores conexões de internet do mundo _Aral, Omsk e Dudinka incluídos), e o assunto são dois só: a paulada que foi a fala do escritor Luiz Ruffato e o vexame que passamos (eu, você e o Tonho) com o depoimento de um certo vice-presidente. Os dois tomavam parte, você sabe, do elenco escalado para discursar na abertura da feira de livros local. O Brasil, você também sabe, é o homenageado este ano aqui na terra do rio Meno.

Nunca antes, ou ao menos muito pouco frequentemente, a soma do quadrado dos catetos foi tão distante do quadrado da hipotenusa.

Goste-se ou não (e, ao que consta, o único que não gostou foi, sabe-se lá por que, o Ziraldo), Ruffato “deu a real”. “Dar a real”, você sabe, é dizer algo “na lata”. Que maravilha que é o Brasil, mas, né? Releia, se os provedores frankfurtianos permitirem, o discurso neste link aqui [ok, não consegui e incluo no pé {ok2, não consegui e indico a vocês que consultem um bom espaço da rede mundial dos computadores, a folha.com}].

A ilustração do que o autor de Cataguazes (MG) queria dizer, ou disse, veio a cavalo.

O vice-discurso, feito pouco depois, foi presidencialmente detraqué. Você não verá a íntegra, nem aqui nem alhures. Se alguém gravou (eles eram mais de 2000 na sala) provavelmente já mandou para o Vladivostok digital.

Bem, o pessoal que escolheu o slogan do Brasil em Frankfurt até que anteviu. “Um país de muitas vozes”, é como temos sido apresentados por aqui.

Podemos ficar com a do Ruffato, desta vez?

P.s. Este poust está pequeno, enigmático e sem fotos, eu sei, ó povo do Elekistão. Mas contra tudos e tod@s ganhou reforço às vésperas de ser pregado no mural: numa lufada do servidor, consegui buscar o discurso supracitado, e ele é este aqui:

 

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro –é a alteridade que nos confere o sentido de existir–, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século 19, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania –moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade–, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios –o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais –ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo –amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro –seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual– como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.”

O pescoço de Orwell

Por elekistao
25/09/13 18:05

Uma bala perfurou a garganta de George Orwell na madrugada de 20 de maio de 1937, em Huesca, no nordeste da Espanha. O escritor britânico, nascido na Índia, militava numa organização de origem trotskista que combatia a tenebrosa trupe do general Franco. O lenço que ele levava amarrado ao pescoço ficou manchado de sangue. No próximo dia 3 de outubro, o tal pedaço de pano estará numa vitrine da casa de leilões Dreweatts & Bloomsbury, em Londres.

Quatro lenços de Orwell, entre eles o “manchado de sangue” (o da esquerda)

Ele integra o lote 239, com quatro lenços que pertenceram ao autor de “1984″.  Podem ser seus por (estima-se) algum valor entre R$ 2800 e R$ 4300.

O Elekistão não investiria em lenços levemente manchados de sangue. Sin embargo, recomenda aos que dispõem de R$ 52,50 que comprem o recém-publicado livro “Uma Vida em Cartas”, do mesmo George Orwell, lançamento da Companhia das Letras.

No volume de correspondências, que reúne cartas escritas entre  1911 e 1949, é possível ler sobre galinhas (não as que protagonizam seu célebre “A Revolução dos Bichos”, mas o par de galináceos que ele criou quando viveu no Marrocos), sobre Napoleão (o imperador, não a tartaruga), sobre conhaque e, de raspão, sobre o tiro que Orwell levou no pescoço quando combatia o fascismo na Espanha.

Desenho feito pelo comandante George Kopp do tiro tomado por George Orwell na Espanha, reproduzido em “Uma Vida em Cartas”

Orwell fala bem pouco sobre o episódio, também abordado en pasant em seu livro “Homenagem à Catalunha” (publicado aqui como “Lutando na Espanha”, pela Globo Livros, atualmente esgotado). Sua mulher, Eileen, que também estava no front, limita-se a mandar um telegrama aos pais do escritor dizendo: “Eric levemente ferido excelente progresso manda amor nenhuma necessidade de ansiedade Eileen”.

Eric, vale dizer, era o nome real do autor. George Orwell era o pseudônimo de Eric Arthur Blair, sujeito que, mesmo nas cartas, pouco expunha de sua vida pessoal (e assim era o criador do termo Big Brother, vejam só).

George Orwell (1903-1950)

Como expressa o jornalista e escritor Mario Sergio Conti, em texto sobre os critérios usados por ele na seleção das cartas do volume brasileiro (compiladas originalmente por Peter Davison), “as cartas de Orwell mostram um escritor pouco parecido com boa parte dos de hoje”.

“As suas observações não tem nada de mesquinho. Ele não faz fofocas literárias, não imagina uma carreira nas letras, não se promove, não quer ganhar dinheiro, não sabe o que é moda”, continua Conti. “Sobrevive mais que modestamente, passa frio, anda a pé, não se queixa de nada. Faz isso para estar junto com os pobres e trabalhadores, para entendê-los, e para viver na prática as suas ideias _ e ser um escritor fiel ao seu tempo e a si mesmo.”

“A Revolução dos Bichos” (primeira edição)

Post-scriptum: No mesmo leilão, que terá como momento áureo (estimam os leiloeiros), o pregão de um exemplar original de “Pride and Prejudice”, de Jane Austen (pode valer até R$ 90 mil), há duas primeiras edições de Orwell, incluindo este acima, de “A Revolução dos Bichos”, lance mínino de R$ 1800.

Janelas discretas

Por elekistao
17/09/13 10:11

Eis mais uma série de recuerdos visuais da viagem diplomática do Elekistão às terras peruanas.

Janela em mosteiro de Cusco

Janela no templo Qorikancha, em Cusco

Janela que dá pra janela (e assim por diante), em Choquequirao

“Olho mágico” em Choquequirao

Janela para as nuvens, nas ruínas incas

Em Choque

Por elekistao
15/09/13 14:11

No último episódio, nossos personagens tentavam chegar ao cume do antigo paraíso inca de Choquequirao, apelidada de “Choque”.

E a expedição continuou (assim como a nossa “sessão de slides”).

Não era propriamente um dia dos mais brilhantes.  A paisagem geral era mais ou menos assim.

Lá no alto, em Choquequirao

Mas as ruínas estavam próximas.

Tão próximas que, após 19 km ladeira abaixo, cruzar o rio na “oroya”, uns 12 km barranco acima e uma noite gelada na barraquinha de camping a mais de 3000 metros de altitude (vestido com o legítimo gorro peruano com tapa-orelhas e desenho de lhamas na cabeça), chegamos.

Primeiras vistas de Choquequirao

Um poquito más arriba (não havia comentado nos textos que fiz sobre a viagem para o caderno Turismo, que, relembrando, podem ser lidos aqui, mas se você perguntar a qualquer guia da região onde fica a montanha tal ou a quantos quilômetros estamos de Choquequirao ele responderá “aquizito, no más”) estava o que se considera o pátio principal de Choque.

Gramado maior de Choquequirao

Uma das vistas mais bonitas das ruinas é a de uns antigos, supõe-se, armazéns.

O rapazinho de azul dá uma escala da distância

Uma tentativa de mostrar um panorama um pouco mais amplo do que seriam as ruínas é esta outra imagem.

O mesmo camarada de azul sempre ajudando nas dimensões

Choquequirao é cercade de mistérios. Grandes e pequenos. O menor de todos é este aqui. O que será este anãozinho encontrado em um de seus nichos centenários?

O misterioso anão de Choquequirao

 Mistério irresoluto, começamos a descida. O acampamento não está longe, veja só.

Descansaremos naqueles pontinhos azuis

 O tempo começa a melhorar. Então vamos adiante.

Nos trechos mais fáceis (e bonitos), o caminho é mais ou menos assim

  E quando tudo parece perdido, há o oásis de Julian, pequeno barzinho sem luz elétrica, sem bebidas geladas, mas com uma bela paisagem.

Parada estratégica

No teto do bar de Julian há este enfeite, comum na região

Julian é dono do simpático vira-lata Tarzan

Para encurtar um pouco a projeção de slides (são quase dois dias mais de caminhadas), daremos um salto quântico aos momentos semifinais da viagem. No horizonte, aparecem picos nevados como estes.

E, já no finalzinho da expedição, no mirante de Capuliyoc, avistamos um dos maiores pássaros do mundo, o condor andino.

El condor pasa

Não foi o animal mais importante de minha viagem, como já revelei em outra ocasião. Na volta, tive em alguns momentos o apoio de uma valorosa mula. Conduzida com maestria pelo garoto Franklin, “Juan” foi fundamental. Com seu retrato, terminamos o carretel de slides.

A mula Juan

 

Meu Peru

Por elekistao
12/09/13 18:46

Deve haver espaço, em algum lugar no ranking das coisas mais chatas de todos os tempos (talvez entre “partidas de futebol de salão na TV” e “tirar segunda via no Poupatempo”), para “assistir sessões de slides de viagens alheias”.

Mas quando dona Edith Elek, personagem influente no Elekistão, comentou que os textos publicados hoje no caderno Turismo, da Folha, estavam “do Peru” (“a genética do trocadilho”), mas que sentiu falta de ver mais imagens da expedição, resolvi atendê-la. Como não encontrei o projetor de slides (ele deve estar em algum armário dos anos 1970), decidi fazer a sessão aqui mesmo.

Antes de acionar o carretel com minhas imagens, dois flagrantes citados no início do texto de abertura (que pode ser lido aqui)

Homer chega a Machu Picchu

 

Superman sobrevoa as ruínas incas

Pois bem, tal como explico no matutino, o objetivo da viagem foi chegar às ruinas de Choquequirao. E o caminho é mais ou menos assim:

As mulas e a paisagem

Não se trata propriamente de alpinismo, mas ao contrário do que algumas imagens aqui reunidas dão a entender o caminho é difícil, sobretudo pelas inclinações do terreno (é preciso percorrer um gigantesco U: descida até o rio Apurimac, subida até Choquequirao). Não tendo sob meu controle o Google View é um pouco difícil representar o plano geral, mas esta imagem talvez ajude dona Edith a ter uma ideia aproximada do percurso:

O grande U

E toca a descer e subir.

A subida suave

O bastão de caminhadas é essencial, como demonstra Christian Jara, da PromPerú, que acompanhou a expedição.

Aí, depois de mais de 19 km ladeira abaixo, chega a hora de cruzar o rio Apurimac. E esta é a ponte…

Só resta atravessá-lo numa gaiolinha chamada oroya.

A “oroya”

Em seguida, uma subida infinita, até o anoitecer.

 

A manhã, no acampamento de Marampata, é mais ou menos assim:

A room with a view

E falta pouco, como indica a barraquinha de madeira, caindo aos pedaços.

Último Bastião da Resistência dos Filhos do Sol e da Sabedoria Andina

Mais chata do que uma “sessão de slides de uma viagem que você não fez” é uma “sessão de slides a uma viagem que você não fez e que não termina nunca”.

Então, paciência dona Edith, a expedição Choquequirao continuará em outro post.

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