Uma mulher notável
10/05/13 17:40Este abaixo é um dos começos mais bonitos -e tristes- que conheço de um romance.
“Eu, naquele inverno, estava tomado de furores abstratos. Não direi quais, não é isso que me proponho a contar. Mas é preciso dizer que eram abstratos, nada heróicos, nem vivos; de qualquer maneira, furores pelo gênero humano perdido. Vinha assim há muito tempo, e andava cabisbaixo. Via manchetes nos jornais sensacionalistas e abaixava a cabeça; estava com os amigos, uma hora, duas horas, e ficava com eles sem abrir a boca; abaixava a cabeça; e tinha uma moça ou uma mulher que me esperava, mas nem com ela eu trocava uma palavra, mesmo com ela eu abaixava a cabeça. Chovia o tempo todo, passavam-se os dias, os meses, e eu tinha os sapatos furados, a água me entrando nos sapatos, e não era mais nada que isso: chuva, carnificinas nas manchetes dos jornais, e água nos meus sapatos furados, amigos mudos, a vida em mim como um sonho surdo, e não-esperança, calmaria. Isso era terrível: a calmaria na não-esperança. Dar o gênero humano como perdido e não ter vontade de fazer coisa alguma quanto a isso, nem vontade de me perder, por exemplo, com ele. Eu estava perturbado por furores abstratos, não no sangue, e ficava quieto, sem vontade de nada. Não importava que minha namorada estivesse me esperando, estar com ela ou não, ou folhear o dicionário, era para mim a mesma coisa; e sair para ver os amigos, ou ficar em casa, era o mesmo para mim. Estava quieto; como se nunca tivesse tido um dia de vida, nem jamais soubesse o que é ser feliz, como se nada tivesse a dizer, a afirmar, a negar, nada de meu para pôr em jogo, nada a escutar, a dar, e nenhuma disposição de ganhar, como se em todos os anos de minha vida nunca tivesse comido pão, bebido vinho, ou tomado café, nunca tivesse estado na cama com uma mulher, nunca tivesse tido filhos, nunca tivesse brigado a socos com alguém, ou não achasse tudo isso possível, como se eu nunca tivesse tido uma infância na Sicília, entre os figos-da-índia e o enxofre das minas, nas montanhas; mas, dentro de mim, eu me agitava com os furores abstratos, e pensava sobre o gênero humano perdido, abaixava a cabeça, e chovia, não dizia uma só palavra aos amigos, e a água me entrava nos sapatos.” (Elio Vittorini; “Conversa na Sicília”; tradução Maria Helena Arrigucci e Valêncio Xavier, ed. Cosac Naify, 2002).
Reproduzo este trecho em memória a sua tradutora, Maria Helena Arrigucci, que morreu ontem, aos 74 anos, em São Paulo.
Leninha era uma mulher notável, um pequeno tornado que jamais imaginei que fosse se aquietar. Convivi quatro anos com ela, quando trabalhávamos na Cosac Naify. Aprendi muito. Seu entusiasmo intelectual, a maneira como saboreava a boa literatura _qualidade ímpar dos Arrigucci, como a matriarca da família e o grande irmão Davi_, era proporcional ao seu zelo profissional, na caça diária aos erros e errinhos (laçava com destreza “paralelismos” e “viúvas”).
Explosiva-divertida-falastrona-insistente-leal-meticulosa-punk-mafiosa-caipira, a grande pequena Maria Helena de São João da Boa Vista não passada batida em nenhum lugar. Dentro da editora, tampouco. Batalhava, com furores às vezes pouco abstratos, pelos projetos que tocava: podiam ser empreitadas épicas, muitas das quais tocadas a quatro mãos com o amigo Augusto Massi (como a caixa “Jean Vigo”, com dois livros de Paulo Emilio Salles Gomes sobre o cineasta ), livrinhos discretos e poéticos (por exemplo “Sardenha como uma Infância”, do mesmo Elio Vittorini) e ainda as obras da coleção “Mulheres Modernistas”, que ela apelidava de “as muié”: entre outras, Flannery O’Connor, Virginia Woolf, Gertrude Stein e, suponho que sua predileta, Natalia Ginzburg.
Em uma palavra, notável. O adjetivo que Leninha usava, sempre, de forma muito séria, diligente, para livros, escritores, “fitas” italianas, tradutores e tudo aquilo que mais admirava parece ser o único possível para encerrar esta despedida.
Lena, a mulher mais modernista que conheci…Bom momento para reler dona Natalia, em homenagem a essa mente brilhante.
Cassiano,
bonito e triste.
Não conheci Maria Helena pessoalmente. Meia dúzia de vezes, batemos na trave, mas não aconteceu.
Trocávamos, porém, de tempos em tempos, emails divertidos, falávamos dos nossos sicilianos e de traduções – não houve melhor tradutora brasileira de literatura siciliana.
No fundo, acho que gosto que tenha sido assim: era nas palavras, afinal, o reino maior dela.
Abraços,
Júlio
Um pássaro me disse certa vez: “Lenoca é a Iggy Pop da edição brasileira”. Muito mestra, essa pequena notável.
Conheci a Maria Helena por conta de seus atrasos,meu filho, no restaurante em que ela almoçava todos os dias e eu esperava por você de vez em quando.
Conversávamos como duas mulheres que se conhecem desde sempre.Um dia sobre o bom lápis para maquiar os olhos, no outro sobre segredos do coração.Dissemos coisas íntimas uma à outra e nem sei dizer como chegamos a isso. Afinidade pura,brotando numa mesa de cantina, entre um encontro e outro. Que bom que você atrasava, meu filho.